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quinta, 07 abril, 2016 /
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O que seremos quando pegarmos no que nos é privado e colocarmos à vista do público?

 

*Imagem: FilmUforia.co.uk

 

Os limites destes mash-ups de matéria orgânica, a que chamamos de pessoas, é infinitamente fascinante. Bebemos leite até ao fim das nossas vidas, coisa que nenhum outro camarada mamífero faz, como se quiséssemos regressar a um momento da infância onde ainda é possível começar de novo.

Preocupamo-nos em deixar memórias para gerações futuras, numa tentativa juvenil de estender o nosso prazo de validade para além do prazo de validade das nossas células.

Transformámos a curiosidade natural, que permite a um primata procurar alimento para além da próxima árvore, em dúvidas filosóficas que nos consomem enquanto espécie.

Todos nós temos escondido cá dentro, mais ou menos amordaçado, um pequeno filósofo e escritor de ficção científica pronto a saltar cá para fora e picar-nos com questões que dizem respeito à nossa existência coletiva.

Até onde pode o ser humano ir, sem deixar de ser humano? Onde se traça a linha?

Se o Homem é o único animal que “sabe que sabe”, que tem consciência de si próprio, o que acontece se expuser a sua consciência à vista de todos? Desaparece enquanto indivíduo e passa a fazer apenas parte da “colónia”?

Descendo agora à terra (digital): o que seremos, quando pegarmos no que nos é privado e colocarmos à vista do público? Quando partilharmos tudo o que somos –  sempre? Como seremos sem segredos? O que acontece quando rebentarmos o buraco da fechadura e ficar tudo exposto – não só o que escolhemos mostrar, mas tudo-mesmo-tudo?

 

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Imagem: Marketo.com

 

O emprego está na rede

 

Reid Hoffman, criador do LinkedIn, a rede social dos profissionais, quer ser o Ubernode, a pessoa mais conectada de sempre (“The Network Man”, revista New Yorker, 12 outubro 2015). Segundo ele, o futuro de todos nós é assumirmos a ligação uns-aos-outros, através das redes sociais. Reid defende que, no futuro, o guardião da nossa carreira já não será o nosso chefe, mas a nossa rede de contactos. É esta rede que vai ditar o nosso próximo emprego, o nosso salário, o que fazemos, com quem andamos.

Reid quer fazer do Linkedin a plataforma que ajudará 3.5 mil milhões de pessoas (metade dos cidadões do planeta) a gerir as carreiras. Acredita que se todos os profissionais do mundo estiverem ligados em rede, teremos uma sociedade com mais oportunidades para todos, logo mais igualitária e mais justa, e um mundo necessariamente melhor.

Segundo a filosofia de Reid, a quantidade e a qualidade dos nossos contactos farão a diferença nos dias que se seguirem ao nosso dia-a-dia.

 

Conectar obriga a partilhar

 

Mas para nos conectarmos, precisamos de partilhar. Basta ver os nossos amigos no Facebook. Tendencialmente, quem mais amigos tem, é quem mais partilha. O algoritmo é mais ou menos este. Quanto mais derem de si próprios, mais interesse geram, mais pedidos recebem.

Depois há quem pise o risco. E esses são os pioneiros, ou os decadentes, consoante o ponto de vista.

Até onde é que pode ir a partilha?

 

Confissões para milhões

 

Lembro-me de, em 2010, ver um post no Face de uma amiga de infância, a primeira pessoa que conheci a expor a dor de ter perdido a mãe, quando ainda tinha 20 anos. Outros 20 anos tinham passado, mas a dor ficara. A dor de que a mãe não tivesse conhecido o filho. A dor de não ter tido o seu apoio nos momentos mais duros. A dor de ver alguém tão próximo ser brutalmente arrancada da sua vida.

Aquele lamento tão sentido e tão genuíno mexeu com dezenas de facebookers que se reviram nas suas palavras e marcou um novo standard. “Wooow, isto é novo”, lembro-me de pensar. A minha surpresa tinha a ver com o facto desta amiga não se encaixar no perfil de pessoas likeódependentes. A sua tristeza levara-a a partilhar esta fragilidade com a comunidade digital, na esperança de receber calor humano, um “não estás sozinha”, coisa que recebera em torrente.

Este post foi, para mim, o prenúncio de um novo mundo de revelações privadas em fóruns públicos.

Mais tarde, vi outro amigo confessar as adições da sua vida também em post. Drogas, alcoolismo, depressão.Trata-se de um amigo em crise existencial perpétua, que se consola com ser likeado, mas não deixara de partilhar em público muita coisa que lhe era privada. Toda a gente sentiu a estranheza e os facebookers solidarizaram-se com a sua confissão. Novo standard. A fasquia foi subindo.

Outra amiga partilhava a felicidade de poder, finalmente, ser considerada mãe do filho que tivera com a sua mulher, a partir do momento em que o parlamento estendera a adoção a casais homosexuais. Todas as angústias de viver numa sociedade que não reconhecia o seu laço profundo e protetor para com uma criança que era tudo na sua vida, eram finalmente postas de lado. Novo standard.

Nenhum destes casos se tratava de pessoas a serem indiscretas, mas pessoas a serem pessoas. Habituámo-nos a partilhar pensamentos, fotos de família, fotos de paixão, estados de espírito, estados civis, sentimentos, momentos-chave, experiências, viagens. Mas são sempre partilhas controladas. Nunca são “all-in”.

 

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Imagem: FilmLinc.org

 

Haverá vida para além da partilha?

 

Quando tivermos percorrido este caminho de partilha digital até ao fim... como será o fim? O princípio de outra coisa?

A pergunta que percorre este artigo mantém-se: o que seremos quando partilharmos tudo? O que definirá a nossa identidade individual? Como lidaremos connosco?

Ou não é bem assim? Ou será que algures ao longo deste caminho de progressiva exposição digital, uma geração futura dirá “nem penses”?

O que se revelará impartilhável?

Quando o nosso cadastro, cv, sucessos e desastres sociais, relações sexuais, escalas de satisfação, graus de amizade e inimizade, ataques de fúria, momentos de inércia, palavrões, mentiras, erros que varríamos para debaixo do tapete, burradas e brilhos, quando todos eles forem googláveis e pudermos fazer gráficos de barras, avaliações com estrelas, perfilagens, estatísticas de tudo e mais alguma coisa para todas as pessoas, porque tudo é público, teremos finalmente chegado ao 1984 de Orwell?

Temos um software cerebral só para descodificação de expressões faciais. Quando tudo estiver exposto, para que vai servir?

Se tudo for transparente, como lidaremos com o fim do mistério?

Se tudo estiver absolutamente às claras, será que ainda vamos querer estar uns com os outros?

Ou dito de outra forma: quando tudo for partilhável, será que vamos dar por nós incapazes de nos partilharmos?

 

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