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Vi, ri e venci

Vi, ri e venci

segunda-feira, 30 março, 2015 /
Vi, ri e venci

O humor é uma virtude fantástica... mas vem com um prazo de validade.


O CÉU

O humor é uma capa deliciosa. Permite-nos dizer o que quisermos, sem nos comprometermos. Tem é que ter graça. Podemos criticar, gozar, picar, mas se a conversa começar a aquecer, há sempre um “estava a gozar” conciliador. Rir não só é o melhor remédio, como oferece uma porta de saída.

Ser gozão é perfeito. Os grandes gozões não têm de tomar decisões. Só precisam de se especializar em revelar o lado patético de tudo o que veem. Se isso lhes trouxer dinheiro, melhor. Gozar é uma profissão de sonho.

Portugal estava desesperadamente a precisar de humor quando surgiu a escola do Levanta-te e ri. O Hermann fora a referência dos anos 1980 e 1990, mas era só um. O teatro de revista fossilizara-se. Os parodiantes de Lisboa tinham acabado. Do Pão com Manteiga só sobravam os livros. Do Raul Solnado restavam gravações.

Novas gerações de homens que morderam os cães e de gatos fedorentos vieram preencher o vazio, produzir ficções e esmiuçar Portugal. O sucesso foi absoluto. Os portugueses precisavam de rir e recompensaram os seus bobos. Estes atingiram fama, dinheiro, poder. Mostraram o caminho a gerações ainda mais novas. A chama dos Monty Python ardia neste retângulo ibérico.

Mas depois pôs-se o humor num altar. E o humor nem sempre tem piada.


O INFERNO

O humor oferece respostas deficientes para quando se tem de despedir alguém, acabar uma relação, não adjudicar um trabalho, decidir o que fazer à vida, despedir-se de um amigo com cancro (apesar dos narizes vermelhos). É libertador poder contar uma piada, ser espirituoso nessas situações. Libertador para nós que não queremos lidar com o lado químico sufocante das nossas emoções. Libertador para a situação, que fica mais solta para quem assiste. Mas é duvidoso que ofereça conforto à outra pessoa.

O humor é demasiadas vezes uma fuga. Um açaimo perfeito para não sentir, para não se lidar com o que aconteceu. Um espasmo emocional forte que anula momentaneamente a força do desconforto que sentimos. É como o Ketchup. Atira-se para cima do que está mal e passa a saber bem. Não muda o mal, só muda o seu sabor.

Num seminário sobre argumento de cinema a que assisti, um orador americano, chamado Robert Mckee, dizia que, quando jantara com vários comediantes, descobrira que eram os seres mais tristes do mundo. Este surpreendente paradoxo acontecera-lhe com o Robin Williams, o Billy Cristal e outros. Todos seres superiormente inteligentes que usavam a comédia como forma de reagir à decepção profunda que sentiam quando olhavam à volta. As suas lentes mostravam-lhes um mundo demasiado cruel, demasiado apático, demasiado injusto. Um estado de coisas contra o qual lutavam uma vida inteira, até por fim baixarem os braços, deixarem de escrever e se abandonarem à sua sorte, com a morte. A comédia ajudara-os a aguentar a vida, quando viver lhes parecera insuportável. Umas férias momentâneas da dor. A prazo, o humor que praticavam era um caminho para a morte. Ser hilariante era angustiante. Entreter era esconder. Cada piada, cada facada.

Os grandes humoristas correm este risco. Empolam a comédia humana para esconderem o sofrimento interior. A sua tragédia é ampliada pela reação de quem os rodeia. Quanto mais graça, quanto mais brilhantes, mais as pessoas se riem. O sentimento que pedia lágrimas, recebe gargalhadas. Brilhante, patético, trágico.

Tentam subir aos céus para iluminar o mal, mas quanto mais perspicazes forem, mais afastados ficam de atingir o seu fim. O riso que provocam é tão relaxante como uma ida à casa de banho. “Obrigadinho pelas piadas, humorista, a minha vida segue dentro de momentos”.

O TEMPO

Uma das tragédias do humor é que se evapora com o tempo, dizia Ian Frazier na edição recente dos 90 anos do New Yorker. O que em 1928 era hilariante, é indiferente agora. O humor é demasiado aqui e agora. O que parece lamentável. É o nosso corpo a querer reagir à ansiedade social, com um soltar de um espasmo. Tanta genialidade desperdiçada. Colocada na prateleira das pastilhas elásticas que acalmam a inquietação interior. Longe do campeonato de Homeros, Platões e Freuds.

Leia o Lisboa em Camisa do Gervásio Lobato, publicado em 1890 e tente rir. Estamos a falar de uma obra que levava as pessoas às lágrimas. Descrevia as peripécias de uma família burguesa a tentar navegar nas águas da ascensão social. O Ricardo Araújo Pereira do fim do século XIX ficou no seu século. As tensões sociais que descrevia, foram-se. E esta é a matéria prima do humor. A história de Jim Smiley e do famoso concurso de sapos saltadores, escrita por Mark Twain, foi um sucesso retumbante numa América que tentava conciliar o lado mais civilizado das elites da Costa Este com o lado mais selvagem dos pioneiros exploradores. O humor é de uma inteligência terra-a-terra.

Nisso é semelhante à publicidade (ou ao ‘advertising’ como agora demasiadas agências gostam de dizer para soar mais importante, o que também é em si cómico). Já olhei para demasiadas campanhas com devoção absoluta, como se fossem maravilhar-me para sempre, como se aquilo que senti fosse a verdade sobre a vida – “Dunlop, tested for the unexpected” do Tony Kaye; “Guinness, Surfer” do Jonathan Glazer; “Cadbury, Gorilla” do Juan Cabral; “HBO Voyeur” e tantos outros. Hoje em dia, peço emprestados os olhos das gerações mais novas e estes filmes não passam o teste. Eram a minha luz, o meu universo, a estrela distante onde queria chegar e quando uso um telescópio mais novo para os ver de novo, acho-os pálidos. Têm o seu charme. Mas é charme, não é graça. O charme de quem lê o Lisboa em Camisa.

Com a tecnologia é igual. Um dia o meu Iphone 6 Plus vai ser arcaico. Com ele senti na pele dos meus dedos o porquê de se chamar ‘smarts’ a alguns ‘phones’. Mas em 2016 já será um telemóvel normal, em 2018 será antigo e em 2020, obsoleto.

O tempo é um fiel inimigo do humor, da publicidade, da tecnologia, e a nós, que dedicamos a vida às suas causas, faz-nos sentir como algo que se prova, mastiga e deita fora.

Daqui a 100 anos, Kant continuará a ser Kant, Da Vinci será Da Vinci, Pessoa será Pessoa, mas o Jon Stewart será “quem é esse gajo?”. Um dia os Monty Python vão deixar de ter graça. Felizmente esse dia nunca vai chegar, diz-me a minha intuição equivocada que nunca se engana.


 

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