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Felicidade Desconfiada

Felicidade Desconfiada

quinta-feira, 22 janeiro, 2015 /
Felicidade Desconfiada

Sinto-me feliz há vários dias. Estarei doente?

 

 


Sinto-me feliz há vários dias. Estarei doente?

Este é um curto relato da minha experiência de felicidade particular. O tema é um tema minado. Foi tomado de assalto pelos livros de autoajuda, pelos murais das redes sociais, pelas marcas e explicado com lugares-comuns. Ficou batido e tudo o que é batido tende a bater mal. Mas – em frente!

A minha experiência de felicidade recente é a de um sentimento colectivo. Não é algo intenso, focado no momento. Não é uma promoção, um aumento de salário, um prémio, uma vitória, um “amo-te”, o êxtase, uma garfada no El Bulli. Nem é o iPhone 6 Plus, acabadinho de chegar, que parece feito para a minha mão (onde, aliás, escrevi este artigo), cheio de apps e cenas para sincronizar com o meu MacBook Pro.

Não é uma cena fixe. Esta felicidade é uma auréola que me envolve e transcende as fronteiras do meu corpo. É algo que só sinto quando estou em família com a minha mulher e os meus quatro filhos. Como se o universo me dissesse que não pode haver felicidade sem eles.


É momentâneo, mas de impressão duradoura. É algo que só me acontece quando estamos os seis, em fluxo, focados no mesmo objetivo, com a mesma expectativa emocional, o mesmo entusiasmo, prestes a passar pela mesma experiência. Geralmente, algo tão profundamente revolucionário como ir ver o Big Hero Six ao Alegro, na sessão das 11 da manhã.

Não é “game changer”. Não é objetivo. Não é intelectualizável. Não é excitante. É, aliás, deliciosamente comum. É sentir que fazemos parte de tudo o que nos importa.

Mas não deixa de causar estranheza.


Não é suposto nem sermos, nem estarmos, felizes. É suposto procurarmos a felicidade como toda a gente. Chegarmos lá, nem que seja por uns momentos, é indecente para outras pessoas tão merecedoras como nós. Quem é que nós julgamos que somos?... Tanta infelicidade à nossa volta e nós despudoradamente a proclamar a nossa felicidade, como miúdos aos gritos depois de marcarem um golo no PES.

Se a felicidade é coletiva, é para ser atingida em conjunto. Por todos. Ao mesmo tempo. Menos do que isso é injusto. É irritante. É elitista. É uma ideia extremamente infeliz.

A felicidade é para personagens de ficção. Cândido. Pollyana. Anita. As meninas exemplares da Condessa de Segur. As Tartarugas Ninja a comer pizza.

Ser feliz é perigoso. É mostrar às outras pessoas que elas estão mal. É criar desconforto. É causa de mal-estar social. É algo que o governo deve combater. A felicidade deve ser por isso eternamente procurada, nunca encontrada. Exceto na versão “all in”. Menos do que isso, não vale. Fora isso, deve ser reprimida. Para não ferir suscetibilidades.


Mais ainda em Portugal, pátria de um dos grandes povos do mundo com uma das piores autoestimas do mundo. O povo que conseguiu fazer revoluções sem mortes. O povo micro que descobriu países macro. O povo que integrou outros povos como ninguém. O povo que à falta de infelicidade competitiva, criou o conceito de infelicidade endémica.

O povo tão orgulhoso da sua infelicidade, que quem proclamar a felicidade momentânea, sem pedir as maiores desculpas, é acusado de terrorismo emocional ou de “poucochismo”. O povo que inventou a palavra “felizardo”, que quer dizer “tás feliz mas não mereces”. O povo que se augura de triste figura, mas se esquece que esse cognome foi inventado para um espanhol ficcionado, de seu nome Quixote. O povo a quem ensinaram que a felicidade se encontra no céu e não cá em baixo.


O povo do país onde muita gente poderia ter momentos de felicidade, se não sentisse estar a trair os laços de solidariedade miserabilista que temos cultivado através dos séculos e nos alimentam a identidade.

Será que a nossa evolução, enquanto identidade coletiva, passa por aqui? Por passar a olhar para a felicidade como um sentimento de trazer por casa e não como um Euromilhões emocional inalcançável?

Desconfio.


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