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Compreendo
Ano Novo, pouca rede

Ano Novo, pouca rede

quarta-feira, 31 dezembro, 2014 /
Ano Novo, pouca rede

Estou em estado catatónico. Tenho uma casa para terminar de empacotar e só me apetece enfiar-me na cama e acordar amanhã

 

 


Olha, tudo se faz, tanto faz. A minha forma de lidar com o stress é entrar em hibernação. Talvez seja a idade, talvez a sabedoria da experiência, isso mesmo, é a idade.

Nos últimos dias fingi que nada estava para acontecer. Até as filhoses de abóbora fiz, mas amanhã, às nove da manhã, três tipos entrarão por esta casa dentro e levarão consigo - sabe-se lá como - mais uma vez, a minha vida.

E eu que o que empacotei deixei aberto. Pode ser que caiba qualquer coisa de última hora, um carregador de telemóvel, uma memória, um recado que se guarda há anos, de mudança em mudança. A partir de amanhã, estou numa casa decente, daquelas onde já estive, mas demasiado longe da civilização.


Na casa nova estarei mais perto da metrópole, mas, mesmo assim, no meio do campo, completamente desligada da civilização, onde só há rede móvel em 5 cm2 do meio do jardim, ali onde teima sair uma raiz. Estou feliz, é isso que quero, mas também ansiosa. É como quando nos casamos.

É impossível não termos dúvidas ou questionarmo-nos sobre a oportunidade de tamanha responsabilidade. Estarei à altura de não estar contactável?

Lembro-me do meu primeiro telemóvel, que tive por questões profissionais. Lembro-me do bip ancestral. A partir desse momento, não há volta a dar. É impossível cortar os laços.


Hoje faço quase tudo online. Faço compras de supermercado, compro roupa e sapatos, viagens e até o totoloto. Até namoro, nas horas vagas, mandando mensagens melosas ao meu marido pelo gmail.

Mas o telefone, por amor da santa, o telefone eu odeio, cruzes credo. Odeio estar contactável, odeio receber três chamadas seguidas do mesmo número, odeio números anónimos, odeio que me perguntem: "estás onde, a fazer o quê?".

Tenho uma imensa vontade de responder: "estou a fazer cocó". Claro que gosto de saber dos pais e dos irmãos e dos amigos, mas odeio, repito, não poder controlar a situação. Sim, é um sintoma de ansiedade de controlo, e depois? Se não for eu a escolher os meus tempos, a gerir os meus silêncios, a escolher "não falar", o que me resta? Posso?


Cresci sem telemóvel e não foi por isso que falhei encontros ou deixei de dar notícias. A minha profissão obriga-me a estar quase sempre em estado de alerta. Se esse alerta pode ser dado online, prefiro.

Pelo menos, não tenho de falar, de ouvir tocar, de pensar "atendo ou não"? Um assunto demasiado picuinhas para a humanidade, este meu. Mas é assim: a partir de amanhã, se ligarem e eu não atender, já sabem: estou sem rede. A sorrir.

E agora, está na hora de limpar o forno e guardar a comida dos cães que ainda me esqueço.


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